Artigo integrado na revista GERADOR #3 . Vidas Novas | Entrevista por Vírgula i

A Mila é uma senhora bem-disposta, sempre pronta para uma boa gargalhada, com uma vivacidade imbatível e uma imaginação imparável. Para além de tudo, a Mila é uma devoradora de livros e uma contadora de histórias. Desde sempre que sonhou com um “espaço” onde o ar livre fosse uma constante e as portas pudessem estar sempre abertas para os amigos.

Durante muito tempo procurou o “lugar” que queria, com amplas vistas sobre a paisagem, espaço exterior e muitas árvores. Há 12 anos encontrou-o sob a forma de uma quinta abandonada, nos arredores de Sever do Vouga, entre as aldeias de Nespereira de Cima e Nespereira de Baixo.

O projeto que desenvolvemos para a casa consistia na apropriação da ruína – uma nova vida para a Mila e uma vida nova para a Casa. A nossa abordagem consistiu em manter o existente, em pedra, e acrescentar um volume novo, de cobre, a biblioteca, que representa também essa nova ocupação. É um dos nossos projetos mais antigos, cumpre agora 10 anos e marcou o início da nossa nova vida como arquitetos.

Para contar esta história, decidimos pedir à Mila que nos falasse da casa, da quinta e dos seus mistérios e também que nos contasse como foi para ela mudar de vida.

Vírgula i: Porquê sair da cidade e ir viver para o campo?

Mila: Porque na cidade já não havia nada que fazer, tinha acabado o meu projeto de mandar filhos para a vida e de repente, deu-me um clique e disse: “É agora que eu tenho que mudar de vida!”

Vírgula i: E então foste viver para a quinta…

Mila: Pois… e pelos vistos também ela estava no mesmo processo que eu, porque há 18 anos que estava adormecida.

Vírgula i: Como foi para ti descobrir os terrenos e a casa?

Mila: Uma quinta toda tapada, com 4 e 5 metros de silvas e de mato e onde só conseguíamos andar pelo perímetro.

Eu não queria uma quinta com casa grande, queria uma quinta para fazer uma casinha à minha medida. E então aquela tinha de facto uma casinha, muito velhinha, muito esfarrapadinha, que era um curral e talvez uma cozinha de quinta, pela aparência… e foi ela que se transformou na minha casa!

Vírgula i: Lembras-te da primeira vez que encontraste as ruínas?

Mila: A primeira vez que encontrei as ruínas fiquei toda picada e cheia de arranhões. Quando cheguei à casa parecia o mapa de Portugal, porque eram arranhões fininhos e as nossas estradinhas também eram estreitinhas na altura!

Vírgula i: Quais foram os primeiros trabalhos feitos na quinta?

Mila: A quinta não tinha caminhos, todos os caminhos tinham sido encerrados. As primeiras limpezas começaram com a máquina, que muito cuidadosamente ia abrindo caminho e que nos ia mostrando aquilo que estava por baixo. Nós só tivemos que tirar as excrescências, porque a obra de arte estava lá!

Vírgula i: Como é que a “cozinha da quinta” se transformou na tua casa?

Mila: Mantivemos os traços daquele sítio e procurámos também aproveitar um bocadinho daquela arquitetura sugestiva. Entrava-se para a sala através de um curral que tinha todo o aspeto de ser um curral de um burro porque tinha em baixo palha, onde dormiria o animal. Isso foi transformado na minha cozinha por onde entramos a maior parte das vezes e que está muito bonita! Toda moderna, vermelha, lacada, com uma parede de pedra em frente. Depois, entra-se na sala. Ao fundo havia uma porta que foi transformada em janela e que ilumina a escada que leva para a parte de baixo. À esquerda havia uma janela que dava para um pátio e para uns currais, currais mesmo! Um deles com muita pedra, que foi aproveitado para a casa-de-banho. E pronto, a partir daí fizeram-se umas maravilhas! A sala ficou com umas grandes janelas que viram para aquilo que eu chamo o meu bosque, com uma clareira e muitas árvores. Podem vir visitar que eu mostro e conto tudo!

Vírgula i: Como te sentes a dormir onde antes dormiam as vacas?

Mila: E a comer onde antes comia a burra! Sinto-me divinalmente animal. (podem escrever mesmo isso!)

Vírgula i: Entre a nova e a velha vida, o que mudou?

Mila: Tudo. Mudou mesmo tudo! Desde o meu trabalho até à minha boa disposição, a minha saúde, a minha maneira de vestir, a minha maneira de sentir a vida, tudo isso mudou.

Vírgula i: Achas que a casa continua a ser a casa de uma mulher que veio da cidade?

Mila: Sim, acho que sim, continua. Ela entende-me, eu entendo-a, às vezes está mais asseada, outras vezes está um bocadinho mais campestre. Acho que é uma boa companheira para mim e eu para ela. Não nos prendemos mas conservamo-nos bem.

Vírgula i: E onde passas mais tempo?

Mila: Na área ao ar livre que são cerca de três hectares e meio, onde temos sempre muito que fazer e que é a verdadeira sala de estar. Quando está mais frio temos fogueiras, quando está mais calor temos a sombra das árvores, sobretudo dos castanheiros e das carvalhas muito antigas. Acho que é uma boa sala de estar!

Vírgula i: E com esta vida tão ligada à terra, como entra uma Bimby na tua casa?

Mila: A Bimby é como os livros na minha vida, são mestres que têm um trato de cavalheiros comigo. Eu chamei-lhe “Milagros”, porque é o nome de uma cigana de um romance que eu li agora, com quem me identifiquei bastante, por outro lado é a combinação de “Mila”, que sou eu, e “agros” que é o campo.

Vírgula i: Ouvimos-te dizer que existem fadas… onde vivem?

Mila: As fadas vivem principalmente naquela parte mais oculta, que é a mata mágica de azevinhos, de carvalhas, sobreiros e aveleiras, aliás, a varinha de condão do Merlim era de aveleira. A magia vive em toda a quinta! Nas grutas, nas minas de água, em cima das árvores, nos tanques. A casa está empoleirada em seixos rolados gigantes, que tive pena de esconder, se calhar, as fadas também vivem aí!

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